05/08/2009 23:26
Financeirização, a palavra proibida
Duas notícias econômicas, divulgadas nas últimas semanas, causaram indignação, sobretudo entre aqueles que perderam dinheiro com a crise financeira. Uma delas foi o anúncio pelo Goldman Sachs de lucros trimestrais recordes e uma suposta obrigação legal de distribuí-los em forma de generosos bônus aos seus executivos. A outra foi a descoberta, pelo The New York Times, de que o mercado de hipotecas nos Estados Unidos assiste as mesmas corretoras fabricantes de empréstimos subprime darem um jeitinho de continuar atuando no mesmo ramo e com os mesmos riscos. A primeira vista estas são notícias negativas, mas, talvez, convençam aqueles economistas ainda reticentes a aceitar a tese da financeirização de que está aí o epicentro da crise e, provavelmente, sua solução.
Durante os anos de liberalização, desregulamentação e especulação bem-sucedida, o mercado financeiro viveu sua maior hipertrofia e promoveu uma punção de riqueza da economia real num nível muito superior ao que ela, na realidade, podia dar. Neste período, a palavra financeirização estava proibida. Coisa desses economistas franceses!, diziam os críticos. A rejeição ao termo, claro, era poluída por um tom ideológico. Afinal, aceitar a financeirização era acatar o conceito de capital fictício, que só está em Karl Marx. A tese de que o mercado financeiro havia extrapolado suas funções dentro do capitalismo e estaria agora prestando um desserviço - em vez de auxilio ao processo de produção era negada sistematicamente pelos defensores do liberalismo.
Mesmo alguns economistas keynesianos, agora tão em moda, eram cautelosos em aceitar esta tese. Pois bem, esse pode ser o lado positivo daquelas notícias aparentemente negativas. Em uma de suas recentes colunas, o prêmio Nobel Paul Krugman escreve: Na geração passada, a economia americana foi financeirizada. As atividades que consistem em movimentar, fatiar, picar e reembalar operações de crédito adquiriram uma extraordinária importância em comparação com a produção concreta de coisas úteis. Mesmo em se tratando de Krugman, é uma mudança e tanto no entendimento teórico da crise. Aos poucos, descobre-se que a economia, no século XXI, está viciada na financeirização e terá dificuldades para funcionar de outra forma.
Mas, de novo, há um problema. Na onda da negação da tese, as faculdades de Economia exceção às poucas heterodoxas que sobraram no mundo abandonaram o ensino desta teoria (Marx ou Keynes sequer são lidos em muitas graduações) em benefício ao aprendizado de modelos matemáticos do equilíbrio geral. Até a revista The Economist constatou isso em sua recente reportagem de capa. Ou seja, em meio à tímida retomada, o mundo financeiro vai retornando às causas da crise pelo simples fato de ainda não conseguir ou não querer - entendê-la por completo.
(Artigo publicado na revista IstoÉ Dinheiro - 25 de julho de 2009)
enviada por Jorge Felix
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