Foto: Bi� Barreira

Jorge Felix � jornalista, 40 anos, trabalhou por quase 10 anos no Jornal do Brasil, onde foi rep�rter especial em S�o Paulo, Bras�lia e Rio de Janeiro. Foi editor-assistente de Pol�tica da revista Isto�; colunista do portal AOL, rep�rter de economia dos telejornais Bom dia, Brasil e Jornal da Globo e coordenador de produ��o do Jornal Nacional. Na Editora Globo, foi um dos criadores da revista Quem, da qual foi redator-chefe. Na TV Cultura, implantou e coordenou o N�cleo de Comunica��o da Funda��o Padre Anchieta. Foi s�cio da editora Barcarolla. Desde abril de 2006, integra o staff de editores da Letras&Lucros. Tamb�m escreve nas revistas Update (Amcham), ValorInvest e no jornal Valor Econ�mico.

28/03/2007 22:07

Com os olhos da publicidade





A ministra do Turismo, Marta Suplicy, anunciou em entrevista à rádio Eldorado sua intenção de criar um crédito consignado para os aposentados comprarem pacotes turísticos. É uma medida louvável pela preocupação do governo em oferecer à terceira idade mais lazer. Por outro lado, a novidade guarda também muito da visão do governo em relação ao idoso.

A política do governo - não apenas deste, mas de quase todos - tem sido paradoxal. Se por um lado oferece aos idosos programas sociais, como o LOAS (benefício de um salário minimo para trabalhadores sem registro ou desconto ao INSS, com mais de 65 anos), de outro, entrega os aposentados à ganância do sistema bancário.

O governo Lula vê o idoso ora com obrigações paternalistas ora com os mesmos olhos da publicidade. Oferece com uma das mãos e o regalo é logo devolvido à mão do mercado. Há uma mentalidade anacrônica, distante dos dados mundiais de envelhecimento global sobre a inexorabilidade de a vida ser mais longa. O governo atua fortalecendo o consumo - base do crescimento do PIB - sem assumir qualquer responsabilidade sobre o futuro do sexagenário.

O crédito consignado - a despeito de permitir a alguns idosos o atendimento de necessidades imediatas - entregou os aposentados à ganância do sistema bancário. Colocou um batalhão de aposentados dentro das agências, unidades há muito descaracterizadas de suas funções pelo serviço via internet e transformadas em lojas de venda de todo tipo de produto financeiro. Há inúmeros casos de vendas de PGBL e VGBL para pessoas com mais de 60 anos, absurdo explicado pela pressão dos bancos para seus empregados atingirem metas.

Segundo o Banco Central, o volume total de crédito consignado alcançou R$ 50,510 bilhões, o que representa um avanço de 46,4% frente a fevereiro de 2006. Com isso, a participação no total de crédito pessoal subiu de 46,5% para 54,6% no período.

A idéia de Marta confirma que, desde o sucesso (do ponto de vista quantitativo e imediato) do consignado, o governo passou a confiar na oferta de crédito como solução de problemas sociais. Os idosos precisam viajar, conhecer pessoas e lugares. É uma atividade fundamental para o envelhecimento ativo. No entanto, quantos idosos poderão usufruir desse benefício sem as prestações pesarem tanto a ponto de lhes arrancar o sono?

O problema do idoso é a ausência completa de políticas públicas de longo prazo, que nunca foram adotadas e continuam a ser ignoradas governo após governo. Os dados do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU dão conta de 2 bilhões de pessoas com mais de 60 anos em 2050 (será um quarto da população mundial). O efeito será ainda maior para os países em desenvolvimento. O Brasil ainda é jovem, mas caminha para este novo padrão.

A despeito desses dados, o governo olha para o idoso com os olhos da publicidade. Ele pode ser uma obrigação, mas também é uma oportunidade, um nicho, um consumidor a garantir ora uma forcinha no crescimento do PIB, com seu endividamento ou sua aposentadoria a sustentar o neto desempregado, ora o idoso é um filão para aquecer o turismo nacional. Esta é uma postura de política pública com inconsequência juvenil ou daqueles que nunca aceitam reconhecer a velhice.

(Foto: Marco Nanini em "A morte do caixeiro viajante")

enviada por Jorge Felix






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