Foto: Bi� Barreira

Jorge Felix � jornalista, 40 anos, trabalhou por quase 10 anos no Jornal do Brasil, onde foi rep�rter especial em S�o Paulo, Bras�lia e Rio de Janeiro. Foi editor-assistente de Pol�tica da revista Isto�; colunista do portal AOL, rep�rter de economia dos telejornais Bom dia, Brasil e Jornal da Globo e coordenador de produ��o do Jornal Nacional. Na Editora Globo, foi um dos criadores da revista Quem, da qual foi redator-chefe. Na TV Cultura, implantou e coordenou o N�cleo de Comunica��o da Funda��o Padre Anchieta. Foi s�cio da editora Barcarolla. Desde abril de 2006, integra o staff de editores da Letras&Lucros. Tamb�m escreve nas revistas Update (Amcham), ValorInvest e no jornal Valor Econ�mico.

31/03/2007 00:16

Carta a Franklin Martins

Meu caro,

foi com imensa surpresa que recebi a notícia de sua ida para o governo. Até o último momento, duvidei. No entanto, você escolheu este novo caminho e desejo, em nome da amizade, toda a sorte - embora seja esquisito chamá-lo alguma vez de ministro.

Leio hoje nos jornais a notícia de que começa a se desenhar o projeto da Rede Pública de Televisão.

Sou contra a idéia. Acredito ser complicado o governo criar um instrumento tão forte como este, que pode, no futuro, cair nas mãos de algum aventureiro. As emissoras públicas espalhadas pelo país tiveram espasmos de bom desempenho e mérito, mas, na média, vivem em crise crônica. Emissora de tevê em crise jamais poderá oferecer bons serviços.

A emissora também é mais uma gordurinha no Estado. O perigo de servir como moeda de barganha para o Executivo (não estou falando deste, mas do poder) e o Legislativo (idem) é enorme.

Há ainda o risco de, dependendo das conveniências políticas, criar-se com as emissoras públicas estaduais uma grande rede estatal. Isso já foi feito. Embora o poder de influência seja irrisório - sobretudo em épocas de internet - existe sempre a tentação de utilizar esses canais a bel prazer do mandatário do momento e das campanhas eleitorais.

Li com alegria e esperança sua declaração sobre moldar-se na BBC. Espero que o Brasil consiga realizar este sonho. Como sabemos, todos os gestores de tevês públicas daqui citam e arvoram espelhar-se na BBC, mas parece-me que, quanto mais seus citam a BBC, mais distantes ficam deste benchmarketing. Esbarram sempre na vontade política. Espero que você seja vitorioso nesta empreitada. E que desta vez seja pra valer.

Por isso, meu amigo, decidi enumerar algumas sugestões, com as melhores da intenções, para ajudá-lo nesta tarefa:

1) é preciso criar um critério técnico, se possível um concurso isolado, para impedir as nomeações políticas. O presidente de emissora pública talvez seja o que mais recebe pedidos de deputados para nomeações, em geral, o Executivo ou finge que não vê, ou reforça o pedido. Em troca, o deputado vota sempre a favor da emissora pública ou faz pressão junto ao Executivo para liberação de verba em favor da emissora;

2) proiba as viagens. O mundo inteiro realiza seminários sobre emissora pública, o papel delas, como deve ser o jornalismo, a programação infantil, a educação à distância etc Todo dia tem um encontro internacional (Paris, surtout) e os funcionários nomeados por aqueles deputados que falei sempre ganham uma passagem;

3) nunca engane-se com os modelos de conselhos administrativos e colegiados, estes são facilmente manipuláveis politicamente e acabam sempre aprovando tudo o que o governo quer;

4) na programação há uma regra básica: se determinado programa puder ser veiculado por uma emissora privada, está inadequado para a emissora pública; embora, evidentemente, nem todos os programas da emissora privada sejam fora do padrão da pública;

5) nunca uma produtora que fez campanha política para este ou aquele partido poderá vender um programa para a emissora pública; aliás, a emissora pública não deve adquirir programas de terceiros;

6) um consultor obrigatório para você ouvir é o colega Américo Martins, atual diretor de jornalismo da BBC para as Américas; acredito que Américo é o melhor entre nós, neste momento, em conhecimento de emissora pública;

7) as regras, leis, regulamentos desta emissora pública precisam de uma proteção tão grande quanto as cláusulas pétreas da Constituição Federal; pois o que mais muda neste país é estatuto de emissora pública;

8) se é para ter publicidade paga/privada, esquece, a emissora, em termos de papel cultural, como você mesmo citou como meta, deixará sempre a desejar, será o começo do fim. Já fui a favor da publicidade, agora sou contra. Se é para criar tem que ser 100% estatal;

9) as auditorias externas (além do TCU), conselhos e administração, sugiro, devem seguir as regras rígidas dos manuais mais modernos de governança corporativa, como se a emissora fosse uma empresa de capital aberto com obrigação de prestar contas a seus acionistas, inclusive com a publicação detalhada de balanço semestral;

10) emissora pública sem ombudsman com credibilidade e independência é só para inglês ver. Mas tem que ser independente mesmo.

Um abraço,
do seu amigo.

enviada por Jorge Felix






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